sábado, 21 de agosto de 2010

A nossa casa

Começamos com um castelo de cartas
Da sina que nos escreve;
Ou será um castelo de areia,
O pó dos nossos sonhos.

Erguemo-lo bem alto numa falésia,
Com o mar a comer a rocha que o segura,
Subindo por ela acima,
Fazendo crer que possamos ser engolidos.

Da torre mais alta avistam-se os mares a toda a volta.
Faz-nos sentir mínimos,
Pontos solitários no meio de uma imensidão azul;
Peças de um puzzle muito maior do que a imaginação consegue tecer.

No salão soltam-se notas rodeadas pelo amarelo das velas,
Nós dançamos à volta do majestoso piano,
Uma valsa, um tango,
O ritmo divino de nossos corpos se encontrando.

Nas masmorras, o cheiro a ervas torna-se soberano.
Um caldeirão mistura-as com uma precisão implacável
Num remoinho mágico de perfeição;
Assim se cozinham lentamente as nossas poções.

Quartos enormes servem para o nosso descanso.
Camas tão confortáveis como os nossos sonhos,
Protegem os nossos amantes de visitas indesejadas.
Eles vivem apenas para nós dentro do dossel que nos vela.

Inúmeras passagens ligam cada recanto entalhado na pedra;
Levam-nos secretamente de um ponto a outro.
Sem rasto nem culpa, cruzamo-nos em demandas perpétuas;
Torna-se labiríntica a nossa troca de vícios.

Um jardim de cristal alegra a fachada sul.
Flores tropicais saturam o nosso olfacto,
Mas é a sua beleza que nos fascina;
Na simplicidade cintilante de uma orquídea.

No bosque os centauros prestam vassalagem ao unicórnio,
Enquanto um grifo sobrevoa as árvores à procura da sua dieta predilecta.
A matilha de lobos esconde-se da criatura mítica,
Deixando pequenos roedores estranhamente aliviados.

No grande lago vislumbra-se a nossa embarcação,
um grande mastro que iça a vela que vela pelas nossas viagens.
Na margem acendem-se brasas quentes ao lado de uma grande mesa.
Teremos um festim; Grifo assado para o almoço.

No atelier, o barro ganha forma sob mãos certas.
A névoa sobre o lago encobre esta sala,
Dando vida às variadas criaturas petrificadas.
Aqui nunca estamos sozinhos debaixo de olhos estranhamente familiares.

Nas entranhas viscerais do castelo aceleram-se partículas ininteligíveis.
Procuram-se novas formas de iluminação desta nossa humilde casa;
Novas formas de transmitir calor ao nosso mundo.
Percebe-se o imperceptível, vislumbra-se o invisível e constrói-se o inimaginável.

Do topo das muralhas gárgulas medonhas enfeitam o nosso lar nas horas de luz.
Fazemos as nossas vidas alheios às suas preocupações.
Mas quando a noite cai, elas acordam, o castelo é agora delas;
As nossas guardas, as nossas protectoras, as nossas guias na escuridão.

Co-autoria: Sassa e Eu

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